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quinta-feira, 7 de março de 2013

Disfarce de cetim



O meu toque é de manso
De estremecido ,abraçado.
Com dedos desajeitados
Em sutil rubor,o rosto.
Medroso dizer no corpo.
No olho o torto
Olhar de lado.
Enviesado ouvido
Fingidor do não querer.
Naquele passo que tropeça.
Por uma ocasional hiperntesão*
De relance o disfarçado
Que aglomera o sensato.
  

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Miragem vazia

(Tarcila do Amaral - O sonho)

Um dia de uma cor só
Vista que não refratava nenhum interesse
Onde todas as imagens já foram decifradas
Mantinha-se cansada.
Retina cicatrizada.
Cansada de olhar
Pupilas ansiosas
Vontade de escuridão
Dormir, não serviria
Os sonhos traziam vitrines
Iris em sépia, inanimada.
Exaustão pelo ver.
Cculpa pelo não querer.
Era o olho então?
Uma grande cavidade absorvente?
Parecendo um dado viciado
Domesticado a compreender   
Ingrata.
Parecia um labirinto de imagens ocas.
As gotas marejavam, ardiam.
Fitava fosca toda a superfície
Não havia nenhuma camada de luz.
Queria uma cor nova.
Sorria com o olhar vibrado:
Imitando a tristeza que acomete o corpo após um banho quente.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca -



Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode praver, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça...ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário...por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

Caio Fernando Abreu