"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada." Clarice Lispector Clarice Lispector
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
O corpo cicatrizado
domingo, 15 de julho de 2012
Sempre ia
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Corpo de fundo

As palmas dos pés ardiam, os dedos adormecidos nada sentiam, já havia peregrinado por um longo caminho. Ela não tinha noção do espaço que ocupava no trajeto,mal enxergava o horizonte,não tinha um rumo exato apenas se movia.Estava cega,não conseguindo mirar nada alem de dois passos no chão,seu campo visual era embaçado e restrito,não cabia nenhum detalhe naquele momento.Seus joelhos tremiam já exaustos,as coxas formigavam estressadas pelo esforço que iam alem daquela estrutura.Sentia como se sua cabeça tivesse sido separada de seu corpo,sendo que seus membro movimentavam-se de forma fissurada,enquanto sua mente ainda estava parada,inerte naquele quarto do quinto andar.Parecia que haviam lhe tirado todo o sangue,invadida por um frio cortante em pleno verão de Janeiro.Não corria pois não haveria ar suficientemente capaz de agüentar seu desejo de sumir dali.Apenas caminha com pouco fôlego,incerta das ruas que a percorriam.Todo a pele erriçada,doía como um rio de navalhas a penetrar-lhe os póros.
-Será que falta muito ainda?-um pensamento desesperado que a suprimia entre a taquicardia.
Distraiu-se: tropeçou em monte de areia que se amontoava na frente de uma construção.Seguiu inabalada,com apenas alguns grãos de areias a esfoliar a camada macia de pele entre os dedos dos pés.Os passos eram duros,mecânicos ,destilavam frieza e indiferença.
Havia ficado nua,se despira ,ficando totalmente vulnerável àquele que não existia. Ela sobrara sem roupas no mundo que atravessa e rompe com todos os sonhos.Violada,porem ansiava em um desejo masoquista de dar mais ainda,mais do que podia,poderia talvez,despir-se da pele que a cobria.Quem sabe assim ele a acharia normal,toda aberta e disponível.
Sendo apenas carne quente, carne dele.
Estaria talvez enlouquecendo e se lembrou de quando aprendeu andar de bicicleta, havia a antiga promessa de que tudo talvez fosse como dominar a arte de pedalar; apenas controlando o destino e mantendo o equilíbrio. Mas o destino não tem forma e quando achamos que o encontramos a imagem perde o foco.O equilíbrio por sua vez escorre pelos vãos de nossos dedos,nos deixando em luto de sua fluída certeza.
-Que horas são?
Queria derrubar o Sol só para contemplar a terra queimando no fogo.
Como sangrava aquele corpo, amolecido pelo doer.
-Estou muito longe do mar?
sábado, 20 de agosto de 2011
Procurando no vazio

Eu andava pelas ruas, fazendo o mesmo caminho que diariamente faço, desviando de um ou outro obstáculo, mecanicamente ultrapassando os desníveis das calçadas e parando em cada esquina, esperando os carros passarem. Era final de mais um dia, outra vez uma semana, dentro da rotina marcante na sucessão dos dias,Estava cansada,tinha a mente e o corpo esgotados.Sentia uma leve melancolia,que alguns associariam à solidão.
Pensei no que iria fazer ao chegar a minha casa. Não senti vontade de fazer coisa alguma. Percebi que olhava alheia para tudo ao meu redor, o trajeto não me atraia, não conseguia sentir nenhuma vivacidade ao observar as casas e vidas alheias.
Foi então que notei o vazio em mim, uma ausência plena que ainda não entendo.
Pensei em mecanismos de preencher esse buraco de minha alma, pensei em correr, gritar e chorar. Nada me estimulou.
Elenquei coisas que pudessem me aliviar uma barra de chocolate meio amargo, um trago, uma xícara de café ou uma dose de conhaque; porém nada elegi.
Vislumbrei por alguém, minha mãe, meu pai, um amigo, um inimigo, simplesmente alguém. Um toque, um abraço, um beijo, nada era aquela minha parte que não tinha.
Desse modo cogitei que talvez o que me faltava fosse aquela religiosidade, aquela devoção solene, que exige rituais e premissas, aquele amor que parece confortar, aquela fé que acolhe e remove as angustias, aquele doce purificar, que os outros costumam chamar de Deus e eu de vazio.
Nesse meu vácuo encontrei talvez uma resposta, contudo uma resposta em vão, por que há muito já não acreditava. Exaltando toda a razão me sentia desprovida de recursos parar ficar repleta. Sentia os poros abertos e indefesos, eu afrontava a vida sem nenhuma armadura, como um molusco sem concha.
Evoquei minha fidúcia antiga, e chamei meu anjo da guarda, e nada aconteceu.
Voltei pra casa exasperada, talvez fosse pelo atrevimento de não acreditar que eu não receberia. E quanto ao filho pródigo?
Seria eu a ovelha desgarrada?
Enquanto me sinto a ovelha negra, e aspiro por esta.
No entanto o vazio me consumia. Procuro meu guardador de rebanhos.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Interzona/Insônia
Luzes verdes. Não durmo.
Sou engolida pela insônia.
Tento ouvir o barulho que o silencio comete, no entanto não há silencio ,ouço um apito distante e um gato miando. Barulhinhos da noite.
Apenas eu emudeço na madrugada enquanto acordada.
Penso em cores, talvez melancias. Teclas, teclado, pianos.
Pareço pauta sem barra e compasso perdido.
Montanha que vira iguana, olho que vira peixe.
Um smile.
Não há silêncio no território onírico, cavidade de minhoca.
Recordo-me das “Confissões de Lúcio”,e tudo parece púrpura.
Um valete aparece com uma carta de Virginia Wolf.
A epístola narra um curta-metragem.
Sinto cheiro de batata rufles de mel com mostarda.
Caminho entre tampinhas de garrafas e embalagens de yakut.Quero brinca de futebol de botão.
Formiga, com cheiro de formiga.
Estou formigando, sinto que vou cair,onde está o chão?
Vôo e controlo a aerodinâmica do meu corpo.
Quero comer dama da noite e engolir o perfume adstringente.
Durmo...
terça-feira, 16 de agosto de 2011
A folha caída
Escrito com, Melina Garcia Gorjon no crespúsculo do gramado.
Diante da surpresa a folha caída
sente que está viva
Surpreendida pelo vento
que a leva
Carregada,passiva...
Entregue sem destino
Provando o gelado da seiva
Ardendo na cicatriz arrancada
Recém-nascida.
Parto,que inicia a partida!
Na não permissão vida
que brota a inquietude.
Aonde cessa o caminho da folha?
Quem sabe está
se diferencie em sua queda
Causando inveja,naquelas
que permanecem presas.
Caindo....
Abdicando de ser parte
para tornar-se todo.
A vida verde,macia está dentro
Intimamente protegida
Mesmo quando no chão
parecendo seca,morta.
Permanece viva.
Livre com o vento.
Ps: Temo me tornar as folhas que entopem os bueiros.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Por que me sinto boba.

Por que me sinto boba.
Percebo-me tola diante dos múltiplos universos ao meu redor, completamente boba; repleta da mais legítima inocência. Atinjo e persisto esse estar gracioso, que contorna o meu ser.
Sinto-me boba por que amo, e amo muito e quase tudo. Boba pois contemplo,sugo cada minúcia e retribuo com numerosos suspiros afetuosos.Pois amo abobada,diante da vida que experimento.
Boba, não vejo, mas sim enxergo.
Boba, perco o sono e me atraso.
Boba,entrego-me, ao todo e inteira.
Erroneamente boba. quando sorrio para aqueles de quem desconfio, obstante toda prudência.
Nem imaginam como é fácil frustrar um bobo.
Magoada finjo nada sentir, exalando uma fortaleza implacável que muitas vezes duvido me habitar.
De fato não sei se outros percebem em meus olhos o aglomerado de incertezas e palpitações, disfarço abarrotada de sagacidade.
Mas ainda me faço de boba para ludibriar os que tentam me iludir, quando alicio afirmativa diante de uma límpida mentira.
Espero que sendo boba possa ser mais feliz na minha malícia. Afinal o bobo também pode ser O lobo.
Como um parvo, falo espontaneamente o que sinto,abrindo absolutamente meu fluxo de pensamento. Entre idéias e devaneios: um amontoado de bobagens, em demasia sem sentido que cansam ouvidos enfastiados...
Boba,por perguntar coisas que não quero saber a resposta.
Boba por esperar...
Boba por acreditar, no que de fato não possui nenhuma verossimilhança com a realidade.
Boba, nas horas que tenho vontade de abraçar e me contenho,ainda mais gravemente tola quando calo diante do que anseio dizer.
Boba nas vezes que não sei onde colocar as mãos e inquieta entrelaço os dedos em meus cabelos, debilmente.
Ainda falta tanta argúcia.
Muito boba por que amo...
Estupidamente boba por perdoar.Irreparavelmente boba por nunca esquecer.
Confesso-me e condeno boba. Boba, por que vivo não apenas existo.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Lettre au vieil amoureux

Sempre soube que éramos feitos dos “mesmos defeitos”,de maneiras opostas porêm simétricas,nossos orgulhos e vaidade circunscritos por inspirações românticas ,mas agora nos perdemos;e a verdade é que sou sua ausência em mim todos os dias.
Ainda me lembro de como você dizia que meus olhos eram lindos e de como minhas mãos ficavam pequenas sobre as suas.Com aquele ar imponente dizia que dormiu sentindo meu perfume,e eu fingia não me importar.
Existem segredos, palavras mágicas com significados exclusivamente nossos e toda vez que toca aquela música, me lembro de você e do parque de diversão que nunca fomos.
Às vezes parece que nossa historia foi um filme que nunca entendi o final, e insisto em relembrar minhas cenas favoritas.
Sinto-me boba e desorientada, com essa carta ridícula.
Talvez seja nostalgia, talvez seja o inverno ou quem sabe saudades.
Já estive muito magoada mas mesmo assim nunca esqueci do seu aniversário e do dia em que nos conhecemos,mesmo quando estávamos brigados.
Você também já esteve magoado,decepcionado e frustrado.
Gostávamos de nos machucar.
Somente agora sou capaz de perceber e encontrar meus erros e deslizes, minhas falhas e lacunas, onde naquela época talvez por falta de vida eu me fazia cega,e por hábito talvez sempre o culpava.Não quero mais competir com você pela posse da razão.
Queria poder falar com você, aquele de antes, que era doce e sem mágoas,aquele pra quem eu ligava de madrugada e me atendia com a voz entorpecida de sono e mesmo assim me prometia um buque de rosas brancas. Mas sei que este você não está mais ai.
Eu como antes também não estou aqui. Mudamos e nos perdemos.
Ficamos presos no passado e em minhas ternas recordações.
Os anos passaram...
A alternativa mais razoável,ao que me parece,é desistir.
Perdoe-me pelas promessas nunca cumpridas.
Envelopei mas não enviei.
domingo, 29 de maio de 2011
A lira dos vinte anos

(Chema Madoz)
A lira que canta
A eterna sina
Do destino de todos os dias
A lira que encanta
No encerramento
Das primaveras já florescidas
A lira que revela
As mudanças contínuas
Das almas desfalecidas
A lira que anuncia
O desfazer
Do tempo que deixou de ser
A lira que explicita
A vida que já foi vivida
E nunca mais vivida poderá ser
A lira dolorosa
Pela constante partida
Dos desertores da existência
A lira cálida
Enamorada
Das paixões recém-nascidas
A lira viva
Que envaidece as rugas
Do rosto jovem
A lira saudosa
Repleta de nostalgia
Inscrita em todas as lembranças
Completar-me-ia está vã lira
Se não fosse por toda ausência
Desses vinte anos.
sábado, 30 de abril de 2011
Depois do tempo próprio

O vento soprou sobre o castelo de areia
Meigo
Alvéolo
Desconstruído, despetalado
Mariposa perdida
Recém emancipada
Desencasulada
Meigo
Borboleta colorida
Camuflada,
Quebradiças asas
Borboleta desprotegida
Mariposa adormecida
Fosca melancolia
Meigo


