"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada." Clarice Lispector Clarice Lispector
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Para ontem
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Corpo de fundo

As palmas dos pés ardiam, os dedos adormecidos nada sentiam, já havia peregrinado por um longo caminho. Ela não tinha noção do espaço que ocupava no trajeto,mal enxergava o horizonte,não tinha um rumo exato apenas se movia.Estava cega,não conseguindo mirar nada alem de dois passos no chão,seu campo visual era embaçado e restrito,não cabia nenhum detalhe naquele momento.Seus joelhos tremiam já exaustos,as coxas formigavam estressadas pelo esforço que iam alem daquela estrutura.Sentia como se sua cabeça tivesse sido separada de seu corpo,sendo que seus membro movimentavam-se de forma fissurada,enquanto sua mente ainda estava parada,inerte naquele quarto do quinto andar.Parecia que haviam lhe tirado todo o sangue,invadida por um frio cortante em pleno verão de Janeiro.Não corria pois não haveria ar suficientemente capaz de agüentar seu desejo de sumir dali.Apenas caminha com pouco fôlego,incerta das ruas que a percorriam.Todo a pele erriçada,doía como um rio de navalhas a penetrar-lhe os póros.
-Será que falta muito ainda?-um pensamento desesperado que a suprimia entre a taquicardia.
Distraiu-se: tropeçou em monte de areia que se amontoava na frente de uma construção.Seguiu inabalada,com apenas alguns grãos de areias a esfoliar a camada macia de pele entre os dedos dos pés.Os passos eram duros,mecânicos ,destilavam frieza e indiferença.
Havia ficado nua,se despira ,ficando totalmente vulnerável àquele que não existia. Ela sobrara sem roupas no mundo que atravessa e rompe com todos os sonhos.Violada,porem ansiava em um desejo masoquista de dar mais ainda,mais do que podia,poderia talvez,despir-se da pele que a cobria.Quem sabe assim ele a acharia normal,toda aberta e disponível.
Sendo apenas carne quente, carne dele.
Estaria talvez enlouquecendo e se lembrou de quando aprendeu andar de bicicleta, havia a antiga promessa de que tudo talvez fosse como dominar a arte de pedalar; apenas controlando o destino e mantendo o equilíbrio. Mas o destino não tem forma e quando achamos que o encontramos a imagem perde o foco.O equilíbrio por sua vez escorre pelos vãos de nossos dedos,nos deixando em luto de sua fluída certeza.
-Que horas são?
Queria derrubar o Sol só para contemplar a terra queimando no fogo.
Como sangrava aquele corpo, amolecido pelo doer.
-Estou muito longe do mar?
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Cristalino

Vou morrer nos seus olhos, menina
Não há tempo de me salvar
Vou correr pros seus olhos como luz
Na sua íris me afogar.
Minha vida passando na sua vista
Você nem pisca
Lacrimeja e se irrita.
Cristalino, cristalino
Pois agora é muito tarde
Já estou na sua retina
Se o pensamento não lembrar
Vou morrer nos seus olhos, menina.
Cristalino, cristalino.
CHINA
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca -

terça-feira, 26 de julho de 2011
Atraiçoando as horas

As palavras são ditas
Seus significados adquirem formas repentinas
Volúpias voluntariosas
Madrugada adentra
Enquanto o sono se dilui
Riso e pausas
Reminiscências e oscilações
Pausa.
Circunscritos por um significado particular
Permeados por conchas e casulos.
Ressalvas cínicas e blefes,sarcásticos.
Os relógios pararam
Os ponteiros derreteram
Minta-me as horas..
Já deve ser muito mais do que tarde
O sol nasce na minha janela
E o mesmo Sol aparece na sua varanda
Eu te deixo ir...
Resta-me apenas a companhia do silencio
E o sono matutino.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Lettre au vieil amoureux

Sempre soube que éramos feitos dos “mesmos defeitos”,de maneiras opostas porêm simétricas,nossos orgulhos e vaidade circunscritos por inspirações românticas ,mas agora nos perdemos;e a verdade é que sou sua ausência em mim todos os dias.
Ainda me lembro de como você dizia que meus olhos eram lindos e de como minhas mãos ficavam pequenas sobre as suas.Com aquele ar imponente dizia que dormiu sentindo meu perfume,e eu fingia não me importar.
Existem segredos, palavras mágicas com significados exclusivamente nossos e toda vez que toca aquela música, me lembro de você e do parque de diversão que nunca fomos.
Às vezes parece que nossa historia foi um filme que nunca entendi o final, e insisto em relembrar minhas cenas favoritas.
Sinto-me boba e desorientada, com essa carta ridícula.
Talvez seja nostalgia, talvez seja o inverno ou quem sabe saudades.
Já estive muito magoada mas mesmo assim nunca esqueci do seu aniversário e do dia em que nos conhecemos,mesmo quando estávamos brigados.
Você também já esteve magoado,decepcionado e frustrado.
Gostávamos de nos machucar.
Somente agora sou capaz de perceber e encontrar meus erros e deslizes, minhas falhas e lacunas, onde naquela época talvez por falta de vida eu me fazia cega,e por hábito talvez sempre o culpava.Não quero mais competir com você pela posse da razão.
Queria poder falar com você, aquele de antes, que era doce e sem mágoas,aquele pra quem eu ligava de madrugada e me atendia com a voz entorpecida de sono e mesmo assim me prometia um buque de rosas brancas. Mas sei que este você não está mais ai.
Eu como antes também não estou aqui. Mudamos e nos perdemos.
Ficamos presos no passado e em minhas ternas recordações.
Os anos passaram...
A alternativa mais razoável,ao que me parece,é desistir.
Perdoe-me pelas promessas nunca cumpridas.
Envelopei mas não enviei.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
As duas camas ou Meu morango no abismo

(Ágatha Zeller)
As duas camas
Sempre estiveram lá
No escuro e no claro
No inverno e na primavera
Lado a lado
Sereníssima!
Ainda me lembro
De quando você era tão pequena
E medrosa
Escondia-se na minha cama
Cuidava de ti
Ainda me lembro
De quando eu já era tão grande
E melancólica
Chorava no seu peito
Cuidavas de mim
Sereníssima!
Sereníssima!
Sereníssima minha!
A fala minha a escuta sua
O desabafo seu o calar meu
Olhos seus
Caracóis meus
Sardas suas!
Ainda sinto os grãos de areia
Saindo de seus sapatos
Procuro avidamente as sardas
Eternamente as sardas!
Nossa vida divida
Tua dor compartida
Minhas angustia repartida
Irmãs!
Irmãs!
...
Irmãs!
Amor saudoso curado com um sorriso
O abraço mais sincero e o grito mais estúpido
Irmãs!
Eternamente
Meu morango no abismo...
terça-feira, 31 de maio de 2011
RESPOSTA À ETERNA LIRA ( Em homenagem a Aline Zeller)
sábado, 30 de abril de 2011
Depois do tempo próprio

O vento soprou sobre o castelo de areia
Meigo
Alvéolo
Desconstruído, despetalado
Mariposa perdida
Recém emancipada
Desencasulada
Meigo
Borboleta colorida
Camuflada,
Quebradiças asas
Borboleta desprotegida
Mariposa adormecida
Fosca melancolia
Meigo
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Metade
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
Oswaldo Montenegro
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Pro dia nascer feliz
Cazuza
Todo dia a insônia
Me convence que o céu
E que a solidão
É pretensão de quem fica
Escondido, fazendo fita
Todo dia tem a hora da sessão coruja
Só entende quem namora
Agora vam'bora
Estamos, meu bem, por um triz
Pro dia nascer felizPro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir
Pro dia nascer feliz
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir
Todo dia é dia
E tudo em nome do amor
Essa é a vida que eu quis
Procurando vaga
Uma hora aqui, outra ali
Nadando contra a corrente
Só pra exercitar
Todo o músculo que sente
Me dê de presente o teu bis
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir, dormir
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir...
Amanhecer...
Saudades de ver o dia nascendo
metade do céu já clareado
e a outra parte ainda escura
Observar atentamente
a substituição
da Lua pelo Sol
A noite não dormida
invertida
pela manhã desmaiada
A penenbra misturada
o amanhecer alaranjado
e a brisa que restou da madrugada
Saudades de vc, Fê!!
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Lacuna

Doeu mais do que normalmente dói diariamente, doeu como uma ferida crônica que nunca cicatriza,doeu como uma perda recente e uma saudade eterna.
Talvez tenha doído por medo, ou pela dúvida do que fazer. A palavra mais exata seria insegurança.
Pensei em quando era menina e você me carregava no colo ao mínimo sinal de perigo, a partir de qualquer gesto de desconforto meu assim você me amparava.
Esperei aquele copo de leite com chocolate antes de dormir.
De vezes em quando finjo que você só está viajando, que se esqueceu de voltar, que está se divertindo muito, dando tantas risadas em algum lugar por ai, que quase consigo escutar. Deve haver muito sorvete.
Vendo suas xícaras e chaleira parece que vejo você fazendo o café da tarde com bolinhos de chuva. Manter suas coisas perto de mim me faz notar sua presença, sua presença que se imortaliza em mim.
Recordo-me das lições de casa, de que quando você me ensinou a ler.
Como essas memórias me trazem um cheiro de infância que não consigo mais encontrar em nenhum lugar, em nenhuma das imensidões que contem o mundo.
Talvez seja por ser uma imensidade só minha, um cheiro que só eu senti, uma sensação que apenas eu tive o prazer de provar.
Olho para minhas mãos. Como me lembram as suas!
Como me inspiro no seu gênio, e tenho o legado de sua ferocidade.
Sim, é verdade você não era nada fácil. Contudo nunca me interessei por facilidades, acho que deve ser essa a raiz de meu apurado gosto por complicações.
Adorava verdadeiramente ouvir aquelas historias, historia não de uma vida, mas de várias que passaram e marcaram sua alma. Pessoas que agora vivem apenas nas gavetas de meus pensamentos e curiosamente chegaram até lá por meio de seus relatos.
Sempre me lembro. Nostalgia a minha!
Volta e meia, me sobe a boca e brota em frase aquela fala:
-“Como diria minha vó...”.
Mas nada volta, e a cadeira de balanço continua vazia.....

