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quinta-feira, 7 de março de 2013

Disfarce de cetim



O meu toque é de manso
De estremecido ,abraçado.
Com dedos desajeitados
Em sutil rubor,o rosto.
Medroso dizer no corpo.
No olho o torto
Olhar de lado.
Enviesado ouvido
Fingidor do não querer.
Naquele passo que tropeça.
Por uma ocasional hiperntesão*
De relance o disfarçado
Que aglomera o sensato.
  

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Miragem vazia

(Tarcila do Amaral - O sonho)

Um dia de uma cor só
Vista que não refratava nenhum interesse
Onde todas as imagens já foram decifradas
Mantinha-se cansada.
Retina cicatrizada.
Cansada de olhar
Pupilas ansiosas
Vontade de escuridão
Dormir, não serviria
Os sonhos traziam vitrines
Iris em sépia, inanimada.
Exaustão pelo ver.
Cculpa pelo não querer.
Era o olho então?
Uma grande cavidade absorvente?
Parecendo um dado viciado
Domesticado a compreender   
Ingrata.
Parecia um labirinto de imagens ocas.
As gotas marejavam, ardiam.
Fitava fosca toda a superfície
Não havia nenhuma camada de luz.
Queria uma cor nova.
Sorria com o olhar vibrado:
Imitando a tristeza que acomete o corpo após um banho quente.

domingo, 15 de julho de 2012

Sempre ia



(Van Gogh )
Outrora eu vivia
Entretida na rígida rotina
Em constante monotonia
Presa entre as certezas ruídas.
Na maquiagem enraizada.

Outrora eu padecia
Pelas mil roupas que vestia
E depois despia.
Não me reconhecendo enquanto nua.

Sendo como nota repetida.
Habitada pela masoquista nostalgia
Das inúmeras peles que em mim cabia.

Antes não percebia
O tanto que meu corpo podia.

Agora me sinto vasta.
Não mais vazia.
Fluída em várias
Entre muitas vias.
Estrangeira em mim mesma
Infinita em minhas fronteiras.
Dispersa, disposta
Transposta em poesia.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Doce de nuvem



Ao olhar as nuvens pela janela do quadro ambulante, pensei que estivessem penduradas por fios de nylon, amarradas num prego preso no azul do céu.
Será possível tocar a textura das nuvens?Ou em uma trama de gotas, elas fugiriam com velocidade de vapor?
Parecem-me tão fluidas livres em seu planar. Viajam peregrinas pela umidade do ar.
Brisa sempre branca.
Talvez tenham gosto de algodão doce, que de tão açucarado fica preso nos cantos de dentro da boca.
Ora alvas, ora cinzas.
Talvez sejam geladas, frescas como o orvalho do gramado.
Às vezes um pouco mais salgadas, como as nuvens que sobrevoam o Mar...
Entre nuvens carregadas já saturadas e nuvens que apenas nublam, vem o ato distraído, lúdico., de tentar achar figuras escondidas.
As nuvens também choram e ganham corpo através das lágrimas
Transformam-se do claro para o escuro.
NuanceS de palidez, alvo inalcançável.  
Alguns dizem que são apenas água disfarçada...
Não sei se todos os dias são dia de nuvem.
Ou sei. Não sei...







sexta-feira, 13 de abril de 2012

Corpo de fundo

As palmas dos pés ardiam, os dedos adormecidos nada sentiam, já havia peregrinado por um longo caminho. Ela não tinha noção do espaço que ocupava no trajeto,mal enxergava o horizonte,não tinha um rumo exato apenas se movia.Estava cega,não conseguindo mirar nada alem de dois passos no chão,seu campo visual era embaçado e restrito,não cabia nenhum detalhe naquele momento.Seus joelhos tremiam já exaustos,as coxas formigavam estressadas pelo esforço que iam alem daquela estrutura.Sentia como se sua cabeça tivesse sido separada de seu corpo,sendo que seus membro movimentavam-se de forma fissurada,enquanto sua mente ainda estava parada,inerte naquele quarto do quinto andar.Parecia que haviam lhe tirado todo o sangue,invadida por um frio cortante em pleno verão de Janeiro.Não corria pois não haveria ar suficientemente capaz de agüentar seu desejo de sumir dali.Apenas caminha com pouco fôlego,incerta das ruas que a percorriam.Todo a pele erriçada,doía como um rio de navalhas a penetrar-lhe os póros.

-Será que falta muito ainda?-um pensamento desesperado que a suprimia entre a taquicardia.

Distraiu-se: tropeçou em monte de areia que se amontoava na frente de uma construção.Seguiu inabalada,com apenas alguns grãos de areias a esfoliar a camada macia de pele entre os dedos dos pés.Os passos eram duros,mecânicos ,destilavam frieza e indiferença.

Havia ficado nua,se despira ,ficando totalmente vulnerável àquele que não existia. Ela sobrara sem roupas no mundo que atravessa e rompe com todos os sonhos.Violada,porem ansiava em um desejo masoquista de dar mais ainda,mais do que podia,poderia talvez,despir-se da pele que a cobria.Quem sabe assim ele a acharia normal,toda aberta e disponível.

Sendo apenas carne quente, carne dele.

Estaria talvez enlouquecendo e se lembrou de quando aprendeu andar de bicicleta, havia a antiga promessa de que tudo talvez fosse como dominar a arte de pedalar; apenas controlando o destino e mantendo o equilíbrio. Mas o destino não tem forma e quando achamos que o encontramos a imagem perde o foco.O equilíbrio por sua vez escorre pelos vãos de nossos dedos,nos deixando em luto de sua fluída certeza.

-Que horas são?

Queria derrubar o Sol só para contemplar a terra queimando no fogo.

Como sangrava aquele corpo, amolecido pelo doer.

-Estou muito longe do mar?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Diário à mim mesma



Hoje o retorno à minha casa foi difícil,mais denso,de maneira distinta,de forma modificada trouxe a distância.Como aqueles que carregam os símbolos,eu cheguei cheia de espera.
Era um retorno de mim mesma, aquela que não mais existia para aquela que contemplava(rá)meus olhos no espelho do bar.
Senti que havia me perdido entre as árvores e estrelas, e jamais retornaria.
A curva parecia mais circunflexa.
Quis abandonar os sentidos,mas não consegui,estava toda repleta de sensações minhas,que ninguém mais conseguia decifrar(para me ser mais fácil a compreensão,desejava um leitor meu).Era uma aglomerado de efeitos (diversos entre si,ao mesmo tempo que análogos)oriundos de um corpo que resistia às vontades da passividade.
O inverno acabará e eu não compreendia isto, ao mesmo tempo em que não o queria.
Era tempo de calor, de frescor, de frutas, mas não entendia...
Queria o toque.
A proximidade, o afeto.
Senti todo aquele amor que transcendia minha pele.
O cheiro que aproximava os corpos.
Ainda sinto que a razão perpetua em doses homeopáticas em toda a superfície.
Queria libertar-me,dessas obediências ao retorno do que já findará,mesmo que internamente.
Queria um modo de sanar todo o ressentimento, e alcançar o todo almejado perdão.
Desejava uma purificação.
Um estar além, algo que parecia compreender a existência, mas não conseguia atingir.
Um todo meu.
Estou indiferente à minha presença, consciente à solidão, porém, me sentido acompanhada.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Abelha camuflada

Dedicado à Melina Garcia Gorjon

Entre tantos zumbidos e murmúrios, ela voava.

Persistia.

Voava levemente, sem planos de vôo...

Entre zig e zags, continuava solitária sua doce jornada.

Sem destino, apenas movida por seus desejos.

Era pequena, mas tinha sonhos de Mel como toda Abelha.

Atraída pelas flores que a evocavam delicadamente com suas cores e aromas.

Era uma abelha escondida, quase sempre distraída.

Tinha altivez em seu planar.

Suas asas pareciam dançar.

Era uma abelha bela, sofrida....

Exalava cheiro de baunilha.

Raros são aqueles capazes de encarar os olhos grandes daquela açucarada voadora,

Era ela muito rápida e incapaz de captura.

Eram poucos que conseguiam perceber a pinta em seu semblante de Abelha.

Tinha expressão terna de menina, abelhinha.

Fêmea auto-gerada.

Partenogênese consumada.

Tinha força de Abelha Rainha.

Encanto majestoso.

Nobre de uma colméia libertaria.

Muitos a temiam...

Medo da abstrusa ferroada.

Eu há muito a esperava...

Desejava sua companhia de Mel.

Minha Abelha querida.

Resguarde a ferroada,pois dela brota a eterna partida.....

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Os prolongamentos do corpo


Surge com o gesto

Que umedece os lábios

Aquece a boca

Brota um beijo.

Entrelaçam-se os dedos

Tocam-se as palmas

Mãos que deslizam

Mãos que se alisam

Pele que percorre

O enlace do abraço

O toque que promove

O arrepio.

O frisson

Que se estendem por toda a superfície

Nuca e ombros

Sorriso.

A tez mármore

Veias verdes

As pintas que desenham o corpo.

Os pés que brincam

Escondem-se

Caminham pelas trilhas

Das pernas.

A essencialidade das saboneteiras

O gosto do pescoço

As curvas da orelha.

Corpos que se acham

Reconhecem-se

Exploram...

O doce segredo

O verso estendido

Nos corpos aliados.

Alados ,prolongados.

domingo, 21 de agosto de 2011

Minhas Mulheres


Boca de vermelho tinto

Cabelos curtos, cabelos longos

Negros, loiros, ruivos...


Mãos novas, mãos enrugadas

Hermanas, amigas!

Mãos dadas!


Amazonas, fadas

Princesas, estrelas

Guerreiras!


Entre mil Sofias e Alices

Lágrimas negras.

Águas-vivas!


Abraços prendidos

Perfume, gineceu

Doce deleite.


Maçãs douradas

Mulheres ousadas

Segredos dentre as saboneteiras.


Compreensão materna

Colo de amiga

Guardiãs,sacerdotisas!


Violento veneno

Força femínea

Delicadeza ardilosa.


Amoras

Margaridas

Meninas.


Nos seios o mistério

O íntimo que palpita

Por todos os desejos.


Minhas mulheres....




sábado, 20 de agosto de 2011

Procurando no vazio


"Não posso crer num Deus que queira ser louvado o tempo todo."
Friedrich Nietzsche

Eu andava pelas ruas, fazendo o mesmo caminho que diariamente faço, desviando de um ou outro obstáculo, mecanicamente ultrapassando os desníveis das calçadas e parando em cada esquina, esperando os carros passarem. Era final de mais um dia, outra vez uma semana, dentro da rotina marcante na sucessão dos dias,Estava cansada,tinha a mente e o corpo esgotados.Sentia uma leve melancolia,que alguns associariam à solidão.

Pensei no que iria fazer ao chegar a minha casa. Não senti vontade de fazer coisa alguma. Percebi que olhava alheia para tudo ao meu redor, o trajeto não me atraia, não conseguia sentir nenhuma vivacidade ao observar as casas e vidas alheias.

Foi então que notei o vazio em mim, uma ausência plena que ainda não entendo.

Pensei em mecanismos de preencher esse buraco de minha alma, pensei em correr, gritar e chorar. Nada me estimulou.

Elenquei coisas que pudessem me aliviar uma barra de chocolate meio amargo, um trago, uma xícara de café ou uma dose de conhaque; porém nada elegi.

Vislumbrei por alguém, minha mãe, meu pai, um amigo, um inimigo, simplesmente alguém. Um toque, um abraço, um beijo, nada era aquela minha parte que não tinha.

Desse modo cogitei que talvez o que me faltava fosse aquela religiosidade, aquela devoção solene, que exige rituais e premissas, aquele amor que parece confortar, aquela fé que acolhe e remove as angustias, aquele doce purificar, que os outros costumam chamar de Deus e eu de vazio.

Nesse meu vácuo encontrei talvez uma resposta, contudo uma resposta em vão, por que há muito já não acreditava. Exaltando toda a razão me sentia desprovida de recursos parar ficar repleta. Sentia os poros abertos e indefesos, eu afrontava a vida sem nenhuma armadura, como um molusco sem concha.

Evoquei minha fidúcia antiga, e chamei meu anjo da guarda, e nada aconteceu.

Voltei pra casa exasperada, talvez fosse pelo atrevimento de não acreditar que eu não receberia. E quanto ao filho pródigo?

Seria eu a ovelha desgarrada?

Enquanto me sinto a ovelha negra, e aspiro por esta.

No entanto o vazio me consumia. Procuro meu guardador de rebanhos.




quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Interzona/Insônia

(Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar,Salvador Dali)


As quatro paredes que não vejo, mas percebo. Entre travesseiros inquieta mudo desconfortável entre todos os lados. Está escuro, mas vejo as luzes que em forma de feixes atravessas as janelas, vislumbro o interruptor da lâmpada, que fica fluorescente na escuridão.
Luzes verdes. Não durmo.
Sou engolida pela insônia.
Tento ouvir o barulho que o silencio comete, no entanto não há silencio ,ouço um apito distante e um gato miando. Barulhinhos da noite.
Apenas eu emudeço na madrugada enquanto acordada.
Penso em cores, talvez melancias. Teclas, teclado, pianos.
Pareço pauta sem barra e compasso perdido.
Montanha que vira iguana, olho que vira peixe.
Um smile.
Não há silêncio no território onírico, cavidade de minhoca.
Recordo-me das “Confissões de Lúcio”,e tudo parece púrpura.
Um valete aparece com uma carta de Virginia Wolf.
A epístola narra um curta-metragem.
Sinto cheiro de batata rufles de mel com mostarda.
Caminho entre tampinhas de garrafas e embalagens de yakut.Quero brinca de futebol de botão.
Formiga, com cheiro de formiga.
Estou formigando, sinto que vou cair,onde está o chão?
Vôo e controlo a aerodinâmica do meu corpo.
Quero comer dama da noite e engolir o perfume adstringente.
Durmo...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A folha caída


Escrito com, Melina Garcia Gorjon no crespúsculo do gramado.


Diante da surpresa a folha caída

sente que está viva

Surpreendida pelo vento

que a leva

Carregada,passiva...

Entregue sem destino

Provando o gelado da seiva

Ardendo na cicatriz arrancada

Recém-nascida.

Parto,que inicia a partida!

Na não permissão vida

que brota a inquietude.

Aonde cessa o caminho da folha?

Quem sabe está

se diferencie em sua queda

Causando inveja,naquelas

que permanecem presas.

Caindo....

Abdicando de ser parte

para tornar-se todo.

A vida verde,macia está dentro

Intimamente protegida

Mesmo quando no chão

parecendo seca,morta.

Permanece viva.

Livre com o vento.


Ps: Temo me tornar as folhas que entopem os bueiros.



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Por que me sinto boba.


"É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.
É que só o bobo é capaz de excesso de amor.E só o amor faz o bobo."
Clarice Lispector



Por que me sinto boba.

Percebo-me tola diante dos múltiplos universos ao meu redor, completamente boba; repleta da mais legítima inocência. Atinjo e persisto esse estar gracioso, que contorna o meu ser.

Sinto-me boba por que amo, e amo muito e quase tudo. Boba pois contemplo,sugo cada minúcia e retribuo com numerosos suspiros afetuosos.Pois amo abobada,diante da vida que experimento.

Boba, não vejo, mas sim enxergo.

Boba, perco o sono e me atraso.

Boba,entrego-me, ao todo e inteira.

Erroneamente boba. quando sorrio para aqueles de quem desconfio, obstante toda prudência.

Nem imaginam como é fácil frustrar um bobo.

Magoada finjo nada sentir, exalando uma fortaleza implacável que muitas vezes duvido me habitar.

De fato não sei se outros percebem em meus olhos o aglomerado de incertezas e palpitações, disfarço abarrotada de sagacidade.

Mas ainda me faço de boba para ludibriar os que tentam me iludir, quando alicio afirmativa diante de uma límpida mentira.

Espero que sendo boba possa ser mais feliz na minha malícia. Afinal o bobo também pode ser O lobo.

Como um parvo, falo espontaneamente o que sinto,abrindo absolutamente meu fluxo de pensamento. Entre idéias e devaneios: um amontoado de bobagens, em demasia sem sentido que cansam ouvidos enfastiados...

Boba,por perguntar coisas que não quero saber a resposta.

Boba por esperar...

Boba por acreditar, no que de fato não possui nenhuma verossimilhança com a realidade.

Boba, nas horas que tenho vontade de abraçar e me contenho,ainda mais gravemente tola quando calo diante do que anseio dizer.

Boba nas vezes que não sei onde colocar as mãos e inquieta entrelaço os dedos em meus cabelos, debilmente.

Ainda falta tanta argúcia.

Muito boba por que amo...

Estupidamente boba por perdoar.Irreparavelmente boba por nunca esquecer.

Confesso-me e condeno boba. Boba, por que vivo não apenas existo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Atraiçoando as horas

(Salvador Dali)

As palavras são ditas

Seus significados adquirem formas repentinas

Volúpias voluntariosas

Madrugada adentra

Enquanto o sono se dilui

Riso e pausas

Reminiscências e oscilações

Pausa.

Circunscritos por um significado particular

Permeados por conchas e casulos.

Ressalvas cínicas e blefes,sarcásticos.

Os relógios pararam

Os ponteiros derreteram

Minta-me as horas..

Já deve ser muito mais do que tarde

O sol nasce na minha janela

E o mesmo Sol aparece na sua varanda

Eu te deixo ir...

Resta-me apenas a companhia do silencio

E o sono matutino.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Expressando



(Chema Madoz)
Inspiração na madrugada.


Um café expresso por favor.

Uma xícara média

Com apenas duas colheres de açúcar


Não muito doce

Nem muito amargo

Apenas forte.


Café expresso.


Café espremido

Filtrado, pressionado

Resultado espesso, escuro.


Expresso, rápido

Depressa.


Uma dose quente

Enquanto me expresso

Estravessa.


Uma xícara inteira

Para agüentar a pressa

Ravessa .


Uma chávena de café

Pequena,serena

No desfazer do açodamento

Ex-pressa.


O café expresso me expressa

Eu melhor expresso minhas impressões

Através de café expresso.

sábado, 2 de julho de 2011

Achado:muito procurado,há tempos perdido...


("Roda de bicicleta", Marcel Duchamp)


"A obra de arte, fundamentalmente, consiste numa interpretação objetivada duma impressão subjetiva. Difere, assim, da ciência, que é uma interpretação subjetiva de uma impressão objetiva, e da filosofia, que é, ou procura ser, uma interpretação objetivada de uma impressão objetiva.
A ciência procura as leis particulares das cousas - isto é, aquelas leis que regem os assuntos ou objetos que pertencem àquele tipo de cousas que se estão observando. A ciência é uma subjetivação, porque é uma conclusão que se tira de determinado número de fenômenos. A ciência é uma cousa real e, dentro dos seus limites, certa, por que é uma subjetivação de uma impressão objetiva, e é, assim, um equilíbrio."
Fernando Pessoa
Trecho de "A Obra de Arte: Critérios a que Obedece".




Por muitos anos procurei esse fragmento de texto, pois na época que o li pela primeira vez quase nada entendi.

Perdemos-nos então...

Reencontramo-nos, agora.

Mas não sei se poderei dizer que o compreendi por absoluto .

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Lettre au vieil amoureux



Sei que já faz muito tempo que não conversamos e tempo maior ainda que não nos vemos, mas depois de tanto hesitar resolvi falar o que sempre evitei dizer, pra ser honesta não sei ao certo por onde começar e vejo minha letra trêmula ao riscar o papel,mas vou tentar verbalizar o que sinto nessa aventurada carta.

Sempre soube que éramos feitos dos “mesmos defeitos”,de maneiras opostas porêm simétricas,nossos orgulhos e vaidade circunscritos por inspirações românticas ,mas agora nos perdemos;e a verdade é que sou sua ausência em mim todos os dias.

Ainda me lembro de como você dizia que meus olhos eram lindos e de como minhas mãos ficavam pequenas sobre as suas.Com aquele ar imponente dizia que dormiu sentindo meu perfume,e eu fingia não me importar.

Existem segredos, palavras mágicas com significados exclusivamente nossos e toda vez que toca aquela música, me lembro de você e do parque de diversão que nunca fomos.

Às vezes parece que nossa historia foi um filme que nunca entendi o final, e insisto em relembrar minhas cenas favoritas.

Sinto-me boba e desorientada, com essa carta ridícula.

Talvez seja nostalgia, talvez seja o inverno ou quem sabe saudades.

Já estive muito magoada mas mesmo assim nunca esqueci do seu aniversário e do dia em que nos conhecemos,mesmo quando estávamos brigados.

Você também já esteve magoado,decepcionado e frustrado.

Gostávamos de nos machucar.

Somente agora sou capaz de perceber e encontrar meus erros e deslizes, minhas falhas e lacunas, onde naquela época talvez por falta de vida eu me fazia cega,e por hábito talvez sempre o culpava.Não quero mais competir com você pela posse da razão.

Queria poder falar com você, aquele de antes, que era doce e sem mágoas,aquele pra quem eu ligava de madrugada e me atendia com a voz entorpecida de sono e mesmo assim me prometia um buque de rosas brancas. Mas sei que este você não está mais ai.

Eu como antes também não estou aqui. Mudamos e nos perdemos.

Ficamos presos no passado e em minhas ternas recordações.

Os anos passaram...

A alternativa mais razoável,ao que me parece,é desistir.

Perdoe-me pelas promessas nunca cumpridas.



Envelopei mas não enviei.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Dissimulação acompanhada




Carregadas do excessivo peso

Seus lindos dentes cerrados

Elas seguem com lábios fechados

Braços cruzados apáticos

Olhos trancados alheios

Mãos paradas

Como as pessoas sozinhas não são elas

Odeio quando me percebo nos outros

Odeio quando me perco nos outros

Dentro e fora de todo o amor

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Comungando folhas




Eu varria as folhas caídas, como quem executa mecanicamente os movimentos para não processar mentalmente a própria melancolia,era uma desculpa pra me distrair,para fugir de mim ,eu me lembro que estava varrendo as folhas caídas....
O pé de Amora sempre esteve lá, eu o olhava todos os dias mas nunca o havia visto de fato.Parei e a vislumbrei,naquele momento eu a percebi,a Amoreira,de todas as manhãs geladas e madrugadas inacabadas,era singela porém grandiosa,me vi acolhida sob ela.esta já estava ali,muito tempo antes de mim.
Eu não mais varria as folhas caídas.
Admirava-a agora.
Suas folhas eram verde escuras, não haviam amoras maduras,nem mesmo flores,apenas folhas,e aquelas folhas me pareciam como frutos...
Foi quando senti aquela volúpia, foi rápido, não pensei no ato propriamente,apenas sabia o que eu estava desejando,foi uma vontade da alma que o corpo compreendeu e sucumbiu.
Não retirei a bela folha de sua haste, a mantive na amoreira, como quem comunga uma hóstia de maneira santificada eu a comi; delicadamente entreabri minha boca, passando-a por entre meus lábios, senti o gosto da seiva viva em minha língua, sabor nunca antes degustado.Como em um rito a mastiguei,não inteira apenas parte de sua metade,não queria depravar nada só desejava o enlace com existência tão casta e límpida.Experimentei a inocência que já havia partido em mim há muito tempo e a veracidade que não encontro nas pessoas.Me tornei parte de uma folha,presa em um galho de uma arvore ,não sei se velha ou muito antiga,unida através de minha boca,boca da folha,haste dela,haste minha,nervuras nossas...
Era um gosto verde, verde vivo; meio amargo com fundo de amora.

domingo, 29 de maio de 2011

A lira dos vinte anos


(Chema Madoz)


A lira que canta

A eterna sina

Do destino de todos os dias


A lira que encanta

No encerramento

Das primaveras já florescidas


A lira que revela

As mudanças contínuas

Das almas desfalecidas


A lira que anuncia

O desfazer

Do tempo que deixou de ser


A lira que explicita

A vida que já foi vivida

E nunca mais vivida poderá ser


A lira dolorosa

Pela constante partida

Dos desertores da existência


A lira cálida

Enamorada

Das paixões recém-nascidas


A lira viva

Que envaidece as rugas

Do rosto jovem


A lira saudosa

Repleta de nostalgia

Inscrita em todas as lembranças


Completar-me-ia está lira

Se não fosse por toda ausência

Desses vinte anos.