quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Soluços engarrafados





Pela estreita porta
Construída entre paredes tortas
Diante  da umidade do  de dentro, e
O calor do de fora
O fôlego busca uma fresta
Em meio à incoerência das sensações.
Respiração que dói.
Faltando destino ao ar
Sei que finjo que não sinto.

Palpitação que pulsa exaurida,
Grita como um soluço
 Da boca pra fora
Rasgando a garganta
Riscando o silencio.

Seguro a respiração
entre os dedos cerrados
Paralisando o delírio,
Debruçando-se  alívio.

Se procuro a graça contida nos risos
é porque  estendo-me na  risada do outro

Desenha-me um sorriso
Engulo o choro como criança.
Mas o queixo ainda treme insolente.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O corpo cicatrizado




Era contínua a superfície do corpo
Vastidão de infinitos poros
Como um tecido fechado
Uma seda dura.
A garantia modelada, impreterível.
O escudo da certeza.

Diante da fragilidade orgânica
Eis que  rompeu
Como uma estria d’alma
A pele rasgou
do dentro pro fora.
A rede ferida, sangrou.
Mudou de cor
Para púrpura-hematoma
 Ardeu, como uma queimadura
Desfiava
Desfazia.

Morria...

Mas por tempo ou por carne
Regeneraria.
Com pontos largos
Pela  agulha da vida
A tez se costurava.
Cicatrizava comedida.
Curaria?

Enrijeceu marcada, à espera das novas fissuras.  
Cicatrizada...



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O verdadeiro castanho



Olhei no espelho e minhas pupilas estavam dilatadas, o castanho estava tão perto de mim. Lembrei-me daquele trecho de  música da Legião que diz a”Tempestade é da cor dos seus olhos castanhos”.Procurei a tempestade dentro da imagem refletida de meus olhos.Ambos começaram a piscar ,inquietos, por se sentirem fitados por mim.
Pareceu que os olhos me buscavam me enxergam por dentro. enquanto  que eu esforçava-me com demasiado encanto enxergar o castanho e o escuro dos olhos.Procurava alcançar o fundo.O que estaria guardado lá?
Nos olhos, os meus olhos, presos no espelho.
Seria uma tempestade de apenas chuvas?
Receio que não, conhecendo a natureza daquele campo de visão.
Seriam, por certo, tornados.
Tornados que tornavam o olho em olho.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Vês



(Vladimir Kush  -  O Sol,a Luz e o Ovo )


A vida que nós levamos
Vivêramos
Sobrevivência

Vivendo
Viveres
Vivido(s)

Vivei
Vivências
Semivividas

Vivêssemos
Sobrevidas

Vivêramos
Sobrevivência
Vivendo
Sem-vida

Viverás
Subvidas

Viverias
Antivida

Viver
Vida
Vive-se
Vivo
Vivamos
Viva
Vivendo
Vivas!

 Viverão
Revivências

Viveremos
A vida que nos leva.

domingo, 22 de julho de 2012

Bilhete etílico



Eu sei que isso é meio estranho, mas não vou à manhã. Porque sei que estou bêbada agora. São várias as cartas que eu me escrevo quando estou bêbada, parece até que tem uma Aline querendo falar com a parte que processa as ações;então resolvi escrever pra você .
Pra quem sabe isso tudo chegar a tona. Você sabe que adoro escrever. Entre personagens, histórias, pessoas e realidade me encontro meio perdida. Não me sinto protagonista em nada. Como se eu fosse eternamente a coadjuvante que exerce papel elementar, aquele que não sabe o desfecho, mas o imagina arduamente; Sei lá.
 Às vezes me sinto muito iludida por um final feliz que é mera representação.
Eu sei que discutimos, que você  acha que na maior parte das vezes as pessoas nos decepcionam...mas e se?e se for diferente?
Essas conversas, nas quais pareço não estar concentrada, me tiram o  sono.Completa autoanalise isso daqui.
Cuide disso, por favor.
Parece loucura. Mas me lembrei de colchas de retalho sem querer.
E depois de tomates verdes fritos.
Parece que de certa forma eu quero que você saiba, como um mau hábito que insiste em ressurgir. Tenho a mania de simplificar o problema alheio,para ser mais fácil...
Mas mesmo assim não é,
A solidariedade tem acabado comigo, a cada fez que meu momento feliz morre pela desgraça alheia. Se eu for esperar estar tudo ok, pra ficar bem, sim estarei perdida. Amanhã não acordarei  à  tempo mesmo.
Será que isto está denso demais; Tão tenso ou denso quanto eu jamais conseguiria pronunciar?
Abelhas tomam néctar de morangos?
Estou bêbada, mas você ainda é meu melhor amigo... será que alguém me engana?Preciso conversar?
Sinto-me entregue no momento à água, pode ser corrente marítima. Ou sono.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Miragem vazia

(Tarcila do Amaral - O sonho)

Um dia de uma cor só
Vista que não refratava nenhum interesse
Onde todas as imagens já foram decifradas
Mantinha-se cansada.
Retina cicatrizada.
Cansada de olhar
Pupilas ansiosas
Vontade de escuridão
Dormir, não serviria
Os sonhos traziam vitrines
Iris em sépia, inanimada.
Exaustão pelo ver.
Cculpa pelo não querer.
Era o olho então?
Uma grande cavidade absorvente?
Parecendo um dado viciado
Domesticado a compreender   
Ingrata.
Parecia um labirinto de imagens ocas.
As gotas marejavam, ardiam.
Fitava fosca toda a superfície
Não havia nenhuma camada de luz.
Queria uma cor nova.
Sorria com o olhar vibrado:
Imitando a tristeza que acomete o corpo após um banho quente.

domingo, 15 de julho de 2012

Sempre ia



(Van Gogh )
Outrora eu vivia
Entretida na rígida rotina
Em constante monotonia
Presa entre as certezas ruídas.
Na maquiagem enraizada.

Outrora eu padecia
Pelas mil roupas que vestia
E depois despia.
Não me reconhecendo enquanto nua.

Sendo como nota repetida.
Habitada pela masoquista nostalgia
Das inúmeras peles que em mim cabia.

Antes não percebia
O tanto que meu corpo podia.

Agora me sinto vasta.
Não mais vazia.
Fluída em várias
Entre muitas vias.
Estrangeira em mim mesma
Infinita em minhas fronteiras.
Dispersa, disposta
Transposta em poesia.